Entrevista para o Blog de Jéssica Periard

Entrevista com Eloisa Baldin

Lembro-me atentamente que mais jovem, eu procurava por influências brasileiras no canto, em especial cantoras com as quais eu pudesse me identificar. Nos tempos do Orkut, o meio era procurar pelas comunidades, e por lá achei a da Eloisa Baldin. Adicionei-a e fiquei muito feliz e surpresa pela humildade, carisma e simpatia, porém ainda não tinha ouvido ela cantar. Muito tempo depois, quando já estava longe do canto, começando a estudar instrumentos musicais, o chamado para o Canto Lírico, estava presente, entranhado em mim como um sonho a ser realizado. Lembrei-me dela, assisti vídeos dela cantando, e ali estava diante de uma grande influência, achei belíssima a voz angelical de Eloisa. É uma jóia rara! Meu blog decididamente abre espaço para influências maravilhosas, de educação e humildade que reluzem como ouro. É com imenso prazer que aqui posto a entrevista via digital (por escrita) que fiz com Eloisa, é importante pra mim e acredito que para todos que queiram conhece-la melhor, se encantarem, como eu me encantei, de fato. Em meio a muita identificação, excelentes conselhos, e uma devoção a Deus que me alegrou o espírito, me emocionei ao ver que realmente tenho como influência as pessoas mais especiais que Mestre Jesus seleciona para estarem meu caminho. Muito obrigada Eloisa, e aqui segue essa valiosa entrevista. Confesso que fiquei com receio das perguntas, porque não me considero boa em perguntar, porém tenho um certo dom para biografias, desde que fiz um TCC de cerca de 300 páginas sobre um músico para o curso de música.

1) Eloisa, conte-me como foi sua entrada no Theatro Municipal de São Paulo. Realmente esperava que fosse estar ali? Já havia sonhado um dia com os palcos, ópera e formação profissional? Ou desejou ter outra profissão antes de tudo acontecer?

Eu estava no último ano do curso de Bacharel em Música Sacra com especialização em regência coral e canto na Faculdade Teológica Batista de São Paulo quando saiu o edital do o concurso para os Corais Lírico e Paulistano. Me inscrevi, precisava trabalhar, e fui fazer o teste. Havia uma vaga para soprano no Paulistano e 2 para o Lírico, e mais ou menos 100 sopranos para cada vaga …. Era um empreitada bem dura. Fui fazer o teste sem muitas espectativas, principalmente depois que cheguei no teatro no dia e vi todas as candidatas. Eu tinha 22 anos e, apesar de ter cantado a minha vida toda, tanto solos como em coros e de ter assistido opera desde os 8 anos de idade, e de ter estudado música desde que me conheço por gente,eu não tinha praticamente nenhum contato com o meio musical profissional. A única coisa que havia feito fora do contexto da Igreja Batista ou Igrejas Evangélicas, tinha sido no Festival de Inverno de Campos do Jordão em 1977 como bolsista.

A minha espectativa como musicista era trabalhar como Ministro de Música numa Igreja e nunca havia passado pela minha cabeça vir a ser uma cantora de opera professional.
No dia dos testes, porque fiz para os dois corais, era lógico que estivesse nervosa, mas como não esperava muito, descansei em Deus e entreguei tudo nas mãos dEle, aliás, não existem melhores mãos para descansar.
Para mim, foi uma notícia maravilhosa quando recebi, por telefone, o resultado oa testes. Havia passado nos dois coros em Segundo lugar, e fui designada para o Coral Paulistano e, segundo o Maestro Miguel Arqueróns, o maestro do coro quando entrei, ele disse que se eu não fosse para o Paulistano ele iria baixar minha nota para não ir para o Lírico …rsrsrsrs
Neste ano completei 35 anos de Municipal, 35 anos de muita experiência, muitas oportunidades, lutas, alegrias, tristezas, expectativas alcançadas, decepções, e sou grata a Deus por cada dia !

2) Como é apresentar-se no exterior? O público te recebe de maneira diferente do público brasileiro? Há algum fato curioso ou engraçado ao qual possa relatar em sua viagem para apresentações internacionais?

Cantar no exterior é sempre uma grande experiência e sempre um desafio. A nossa responsabilidade aumenta muito.
O publico, principalmente o europeu, é bastante exigente, porque tem como formação, de maneira geral, a música erudita. Porém eu creio que eles não esperam cantores com qualidade igual ou até melhor, de um cantor de “3º mundo”, isso é até curioso e de certa forma é algo que acaba sendo um ponto a nossa favor. Isso aconteceu quando fui cantar for a, porém hoje em dia esses parâmetros já mudaram um pouco, para melhor … porém não muito.
As minhas apresentações foram todas muito positivas e só tenho boas lembranças. Acho que a que mais marcou foi poder fazer audição no Metropolitan Opera de Nova York, ter sido elogiada e depois ter sido convidada para permanecer lá para outras audições, o que foi impossível para mim, com filhos pequenos, compromissos aqui, trabalho e etc… Foi uma opção e uma decisão consciente, mas fico muito feliz com as possibilidades que teria por lá. Sei que seria muito duro e muito difícil, mas só de poder ter essa perspectiva foi um grande incentivo para mim.

3) Ganhar o prêmio de “Melhor cantora brasileira” no Concurso Internacional de Canto no Rio de Janeiro, e de “Melhor voz feminina” no concurso Carlos Gomes de Campinas era esperado por ti? Ou foi uma grande surpresa?

Quando fui para o Rio eu fui para me testar. Estava passando por um periodo um pouco delicado de minha carreira do ponto de vista de técnica vocal e mudanças que havia feito e estava meio que “pisando em ovos”, tanto que eu me preparei mesmo para as primeiras duas provas e a última eu meio que deixei de lado …kkkkk
Quando terminei a primeira aria da primeira prova “ O del mio dolce ardor” de Gluck, o publico presente, e era um publico bastante exigente e daqueles que constumavam ir a todas as provas em todos os concursos, veio abaixo … eu levei o maior susto, eles não paravam de aplaudir, gritavam, ficaram em pé … eu não acreditava que aquilo era pra mim. Me lembro bem que virei para o Caio Ferraz, que era meu pianista, e perguntei “Isso é pra mim????” …. Rsrsrsrs. Foi incrível. Depois cantei a Seresta nº 5 de Villa Lobos e “Addio senza rancor” da Bohème de Puccini. Voltei umas 5 vezes ou mais para o palco, o povo enlouqueceu. Quando me troquei e voltei para a plateia para assistir os outros cantores eu quase não consegui chegar na sala, me pararam no saguão da Sala Cecília Meireles, onde eram realizados os concursos, e não me deixavam sequer andar, me pediam autógrafos, me perguntavam onde eu estudei, onde eu morava e etc… etc…. Eu só ria muito, principalmente porque todos achavam que eu morava e estudava fora do Brasil ( aquela velha idéia colonialista de que aqui não temos nada de bom !!!). Quando eu dizia que havia estudado só aqui ninguém acreditava.
A minha segunda prova estava bem preparada, mas não tão bem como a primeira e o juri meio que implicou com a escolha do repertório …kkkkkk ( o objetivo desses concursos era sempre premiar estrangeiros, então … a coisa era complicada !!), enfim, quando me comunicaram que eu havia ganhado o prêmio de Melhor Cantora Brasileira foi a maior surpresa que tive !!!
Já o Concurso de Campinas eu fui com um grande peso, de já ter uma carreira, de ser uma cantora conhecida e de chegar lá e encontrar cantores muito iniciantes junto com cantores com media ou bastante experiência. Foi muito complicado pra mim, e fiquei dez vezes mais nervosa do que o concurso do Rio. Esse foi o ultimo concurso que fiz … já tinha 40 anos, imagine, e vi que já não tinha mais nervos pra isso. Concurso é algo que precisamos fazer no começo de carreira, quando somos jovens.
Fui sempre muito feliz com todos os concursos que fiz, ganhei a maioria deles e isso tudo me deu uma experiência de palco muito grande. O nervosismo que enfrentamos num concurso não se compara em nada com o de uma opera ou recital… é absolutamente indescritível !!!

4) O que pensa sobre a música hoje em dia? Não só a música contemporânea como um todo, mas os estilos que os brasileiros tem colocado na mídia, como Sertanejo Universitário, Funk, Techno Brega, e esses outros estilos que são americanizados?

Eu sou bem chata nesse ponto. Ouço quase nada de música popular a não ser MPB ( do povo bom !!!), jazz ou Rock – progressive e Beatles.
Não su–por-to os gêneros que voce citou acima … quer me deixar nervosa, é me obrigar a ouvir essas “músicas”. Os motivos são vários – a baixa qualidade musical e  vocal ( se é que há alguma … as vozes são as piores possíveis) as letras impossíveis de serem ouvidas, a total falta de poesia e por ai vai … viveríamos muito bem sem eles !!!! Ou até melhor !!!
Como é que podemos comparar essas coisas com uma poesia como esta:

Chão de Estrelas
Silvio Caldas
Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões
Cheio dos guizos falsos da alegria
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações
Meu barracão no morro do Salgueiro
Tinha o cantar alegre de um viveiro
Foste a sonoridade que acabou
E hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão, sinto saudade
Da mulher pomba-rola que voou
Nossas roupas comuns dependuradas
Na corda, qual bandeiras agitadas
Pareciam estranho festival!
Festa dos nossos trapos coloridos
A mostrar que nos morros mal vestidos
É sempre feriado nacional
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Tu pisavas os astros, distraída,
Sem saber que a ventura desta vida
É a cabrocha, o luar e o violão
 

Com as obsenidades e as porcarias que escrevem hoje em dia, as quais não ouso nem postar aqui … principalmente essa coisa chamada Funk … por favor !!!
Infelizmente não temos mais compositores, letristas como tínhamos … se o Chico Buarque, Edu Lobo, Francis Hime, Ivan Lins pararem de compor completamente não sei aonde vamos … acho que não vamos a lugar nenhum, a não ser imitar a baixa qualidade da música Americana …. Que coisa triste !!!

5) Sei que acredita em Deus. Em que a religião influencia em sua vida e experiência musical? Sempre teve fé que conseguiria chegar aonde chegou?
Deus, Seu Filho Jesus Cristo e o Santo Espírito Consolador é a minha razão de vida e a minha prioridade. Tudo que faço submeto à Sua Vontade. Oro antes de tudo e coloco minha vida, minha família, minha voz, tudo nas mãos dEle.
Comecei a cantar com uns 4 ou 5 anos na minha igreja, cresci cantando nos corais de minha igreja. Meu primeiro solo foi na minha igreja, na época a Igreja Batista da Liberdade – que sempre foi uma igreja grande com cerca de 1.500 membros à época e hoje com cerca de 3.000 – eu tinha 6 anos, minha irmã Eunice, tocou o órgão Hammond e eu cantei … muito “metida” pra 6 anos !!! kkkkkkkk
O Ministro de Música de nossa igreja, Almir Rosa, foi de grande influência em minha vida para começar a estudar mais sériamente e entrar na faculdade. Nessa época de adolescência, eu cantava em quase todos os corais da igreja – no principal, no de jovens e em conjuntos (hoje seriams nossas Bandas) , fiz muitas cantatas, muitos solos e também fazia os cenários – sou formada em desenho pela escolar Panamericana de Arte – isso me envolvia o tempo todo !!
Devo à Deus o meu talento, minha voz e nunca deixei de trabalhar para Ele na Igreja. Meu marido é Pastor Batista, Pr. Marcos Petriaggi, e pastoreia a Igreja Batista em Planalto Paulista, onde sou regente do Coral desde que lá chegamos, em 1985. Nosso coral já cantou desde a “Paixão Segundo São João”, de Bach, até as cantatas gospel contemporâneas que são mais simples, mas nem por isso menos inspiradoras. Sou também professora de canto na Faculdade Teológica Batista, no curso de Música, que é para mim também um ministério tanto quanto o que exerço em minha Igreja. Lá além de dar aulas de Técnica Vocal também começo neste semestre a dar aulas de Performance.
Em nossa Igreja já fizemos muitas cantatas encenadas e até viajamos para outras cidades para apresenta-las.
Essa é a minha maior alegria e propósito de vida.

6) Quais são suas principais influências musicais? Há cantores e músicos que gosta de ouvir desde criança?

Cresci ouvindo “música boa”, como diziam meus pais … isso significava música erudita, ópera, música sacra. Em casa o que ouvíamos de música popular eram os cantores antigos, da época de ouro do radio, como “Chão de Estrelas” que coloquei como exemplo de poesia, e música na outra pergunta. Ouvi também Chico e seus contemporâneos, mas o forte mesmo era Bach, Beethoven. Mozart, Händel, Verdi, Puccini e por ai vai.
Meus vizinhos, italianos também, tinham assinatura das temporadas líricas do Municipal, e a primeira vez que fui assistir a uma opera, aos 8 anos, foi com eles – assisti Cavalleria Rusticana e Pagliacci – a estréia do grande Benito Maresca e o maravilhoso Sergio Albertini – grandes tempos !!!
O Messias de Händel é algo que ouço sem cansar desde que me conheço por gente, assim como a obra Bach, a opera Carmen, de Bizet, que assisti na mesma temporada de minha estréia como publico de ópera.
Quando entrei no Municipal minha mãe me deu de presente a “Flauta Mágica” de Mozart – uma gravação antológica com Fritz Wunderlich, Roberta Peters… em PL, lógico …hehehehe, foi um presente fantástico que tenho até hoje!
Desde que comecei a cantar profissionalmente tenho alguns cantores que são meus preferidos – Leontyne Price, por exemplo, Fritz Wunderlich, Jessye Norman, Franco Corelli, Giulietta Simionatto, Maria Callas, Renata Tebaldi, Mirella Freni, Pavarotti. E

7) Se não fosse Soprano, gostaria de ter uma voz diferente da sua? Que classificações de vozes admira mais?

Bom, comecei como soprano, hoje canto como mezzo soprano sou muito feliz com a voz que tenho – que nunca foi uma voz fácil de trabalhar …hehehehe
Gosto de todas as vozes boas, desde que o cantor seja bom, tenha uma boa técnica, seja um grande artista, saiba cantar, saiba se expresser … não há porque não gostar !!

8) Houve algum impedimento ou muitos impedimentos na música? Obstáculos que tenham se criado e que te fizeram encarar sua entrada na música como um problema que devia ser posto de lado? Se houve, como lutou para permanecer na música? E o que pensa desses obstáculos que surgem, como a desaprovação dos pais, dores, problemas alheios, possível falta de aptidão, etc?

Não posso me queixar de ter tido impedimentos para fazer música – cresci com ela e ela sempre fez parte de minha vida. Nunca imaginei que essa seria minha profissão ou que seria uma cantora lírica professional, porém só tive incentivos, tanto de meus pais como de meu marido – que é meu grande incentivador.
Creio que se essa é a sua vocação e que você tenha realmente talento e disposição para se dedicar de verdade – não é fácil nem barato, é necessário MUITO estudo, muita dedicação, horas de estudo – musical, técnica vocal, estudo de línguas, estudo de estilos, estudar teatro, aprender a atuar, desenvolver seu personagem e etc… etc… etc…. vá em frente. Tenha porém em mente que essa não é uma profissão para “preguiçosos”, o trabalho é duro e também precisamos aprender a lidar com nossos nervos, com a pressão da competição e etc…
Veja bem, não estou aqui tentando fazer com que desistam, mas que tenham consciência do que os espera e de que temos que seguir sempre estudando, de que teremos sim obstáculos, decepções, mas nada substitui nada disso quando subimos no palco para cantar – essa é uma sensação única !!!
Acima de tudo isso temos que ter a humildade suficiente para saber ouvir conselhos – se realmente temos o talento e a garra necessarios para essa profissão, se temos a voz para este ou aquele papel, se estamos dispostos a dar o tempo necessário para o desenvolvimento da voz. Aqui no Brasil existe um problema sério, as pessoas querem sair cantando Puccini depois de um ano de estudo … isso é loucura, Puccini é a última coisa que vamos cantar – antes temos que passer pelas árias antigas, Mozart, o magnífico Bel Canto e depois, beeeem depois, e se for apropriado para a sua voz, cantar sim Puccini.
Aprender a ouvir, aprender a aceitar erros e tentar melhorar, ter a humildade de saber que no palco nós nunca sabemos o suficiente, estamos sempre aprendendo, isso é muito importante !!!

9)Gostaria de agradecer muito pela oportunidade. Qual o recado ou dica que daria a alguém, como eu por exemplo, que está adentrando o universo do Canto Lírico? E para seus fãs, e seus amigos que te ajudaram e fizeram parte de sua vida com memórias inesquecíveis?

Bom, na resposta acima já deixei muitos conselhos, Acho que é isso. Acima de tudo, seja paciente e persistente.
Aos meus amigos, professores, maestros, todos queridos que me acompanharam desde que comecei, alguns que já se foram, eu só tenho a agradecer muitíssimo e pedir que Deus os abençoe ricamente em suas vidas e em suas carreiras.
Para citar alguns queridos :
Meus professors na Faculdade Teológica – Darcy Gatz, Pr. Marcílio de Oliveira Filho,  Dr. Edward Spann, Isidoro Lessa de Paula, Almir Rosa.
Minha primeira professor de técnica vocal – Anita Lusa e depois sua filha Mariuccia Lusa Lourenção, Neyde Thomas, Carlos Vial e agora Carmo Barbosa.
Meus maestros preparadores – Abel Rocha, Maestro Marcelo Mechetti, Armando Belardi (aprendi muito com ele), Walter Lourenção e meu querido pianista e compositor Amaral Vieira, com o qual tive o grande prazer de graver dois Cds com suas obras.
Obrigada Jéssica pela oportunidade de poder compartilhar um pouco de minha vida profissional e espero que seja últil para quem estiver começando.
Deus abençoe a sua vida.

Liebestodt